Curiosidades
As línguas que influenciaram o português brasileiro
Tupi, quimbundo, iorubá, árabe, francês, inglês, italiano e japonês: descubra como cada língua deixou marcas no português do Brasil, com exemplos de palavras.
Por Equipe Aigenip · 14/08/2026 · 10 min de leitura
O português que falamos no Brasil é, em sua base, uma língua românica, herdeira do latim levado à Península Ibérica pelos romanos. Mas basta prestar atenção ao vocabulário do dia a dia para perceber que ele carrega marcas de muitos outros povos. Quando pedimos um abacaxi, fazemos cafuné, colocamos açúcar no café, acendemos o abajur, jogamos futebol ou comemos um caqui, estamos usando palavras que vieram de línguas indígenas, africanas, árabes, europeias e asiáticas.
Este guia percorre as principais influências que moldaram o português brasileiro, com exemplos de palavras. Vale um aviso: a origem exata de algumas palavras é discutida entre especialistas, e os dicionários etimológicos nem sempre concordam. Quando houver dúvida, indicamos.
A herança árabe, vinda da Península Ibérica
A influência mais antiga fora do latim chegou ao português antes mesmo de ele existir como língua independente. Entre os séculos VIII e XV, grande parte da Península Ibérica esteve sob domínio de povos muçulmanos, e o árabe conviveu por séculos com os dialetos românicos locais. O resultado é uma camada significativa de vocabulário que o português compartilha, em boa parte, com o espanhol.
Muitas dessas palavras começam com al- ou a-, vestígio do artigo definido árabe al, que foi incorporado à palavra:
- Alimentação e agricultura: arroz, açúcar, azeite, azeitona, alface, alecrim, laranja (esta com origem mais distante, no persa).
- Casa e cotidiano: almofada, alfaiate, aldeia, armazém, azulejo, alicate.
- Administração e comércio: alfândega, tarifa, refém, arroba.
- Ciência: álgebra, algarismo (do nome do matemático al-Khwarizmi), alquimia, zero (por intermediação do italiano e do latim medieval).
Até a expressão oxalá, usada para manifestar esperança, é geralmente associada ao árabe law šā' allāh, "se Deus quiser". Vale notar que esse oxalá não tem relação com Oxalá, nome de um orixá, que vem do iorubá. Saiba mais sobre a língua de origem na página do árabe.
Tupi: a língua da terra
Quando os portugueses chegaram ao litoral brasileiro, encontraram povos falantes de línguas da família tupi-guarani, especialmente o tupi antigo (ou tupinambá). Nos primeiros séculos da colonização, uma língua baseada no tupi, a chamada língua geral, foi amplamente usada na comunicação entre indígenas, colonos e missionários, a ponto de ser mais falada que o português em algumas regiões. Os jesuítas produziram gramáticas dela, como a de José de Anchieta, publicada em 1595. Uma de suas variantes, o nheengatu, é falada até hoje na Amazônia.
O tupi deixou milhares de palavras no português brasileiro, sobretudo para nomear a natureza que os europeus não conheciam:
- Animais: jacaré, tatu, capivara, jabuti, piranha, arara, sabiá, urubu, tamanduá, siri.
- Plantas e frutas: abacaxi, caju, mandioca, maracujá, jabuticaba, capim, ipê, pitanga.
- Comidas e objetos: pipoca, mingau, tapioca, peteca, arapuca, cuia.
- Verbos e expressões: cutucar, e a expressão "estar de tocaia".
A influência é ainda mais visível nos nomes de lugares: Ipanema, Itaquera, Pará, Paraná, Piracicaba, Guanabara, Curitiba, Itaú, Jundiaí e inúmeros outros. Na mesma família linguística está o guarani, uma das línguas oficiais do Paraguai, o que explica por que muitas palavras soam familiares aos dois lados da fronteira.
Línguas africanas: quimbundo, iorubá e outras
Entre os séculos XVI e XIX, milhões de africanos foram trazidos à força para o Brasil pelo tráfico de pessoas escravizadas. Eles falavam dezenas de línguas diferentes, e sua presença marcou profundamente a cultura e a língua do país. Pesquisadores como Yeda Pessoa de Castro dedicaram suas carreiras a documentar essa herança.
Línguas bantas: quimbundo, quicongo e umbundo
Uma parte muito grande dos africanos trazidos ao Brasil, sobretudo nos primeiros séculos, vinha da região de Angola e do Congo, onde se falavam línguas do grupo banto, como o quimbundo, o quicongo e o umbundo. Essas línguas contribuíram com palavras que hoje são parte do vocabulário mais íntimo e afetivo do brasileiro:
- caçula, cafuné, dengo, moleque, bunda, cochilar, camundongo, marimbondo, miçanga, quitanda, quilombo, senzala, cachimbo, fubá, muvuca.
- Na música, termos como samba e maracatu costumam ser associados a origens africanas, embora a etimologia exata seja debatida.
Alguns linguistas também atribuem ao contato com línguas africanas certas tendências da pronúncia e da gramática do português brasileiro, como a simplificação de concordâncias em variedades populares. Esse é um tema de pesquisa ativa, e há explicações concorrentes.
Iorubá e línguas da África Ocidental
No século XIX, cresceu a chegada de africanos da região do golfo do Benim, especialmente à Bahia. Entre eles estavam falantes de iorubá (chamados de nagôs no Brasil) e de línguas gbe, como o fon e o ewe (associados aos jejes). O iorubá se preservou sobretudo como língua litúrgica do candomblé, e dele vêm palavras como:
- orixá, axé, Iemanjá, Xangô, Oxum, Exu, Oxalá;
- acarajé, abará, agogô, ogã.
Muitas dessas palavras saíram do contexto religioso e entraram no português geral. "Axé", por exemplo, passou a designar energia positiva e até um gênero musical.
Francês: prestígio, moda e cultura
Nos séculos XVIII e XIX, o francês era a língua de prestígio da elite brasileira e europeia. Quem queria parecer culto lia autores franceses, vestia moda parisiense e salpicava a conversa de expressões francesas. Muitas dessas palavras foram adaptadas à grafia portuguesa e hoje nem parecem estrangeiras:
- abajur (abat-jour), sutiã (soutien), maiô (maillot), buquê (bouquet), bijuteria (bijouterie), crochê (crochet);
- garçom (garçon), chique (chic), toalete (toilette), matinê (matinée), purê (purée), omelete (omelette), chofer (chauffeur).
O francês também influenciou o vocabulário da administração, do direito e da culinária, e deixou expressões como déjà vu e à la carte, usadas até hoje em sua forma original.
Inglês: esporte, tecnologia e cultura pop
Se o francês foi a língua de prestígio do século XIX, o inglês ocupou esse lugar no século XX. As primeiras ondas vieram com o esporte e a indústria: futebol (football), gol (goal), pênalti (penalty), time (team), bonde (provavelmente dos títulos, os bonds, emitidos pela companhia de transportes do Rio de Janeiro), sanduíche (sandwich).
Depois vieram o cinema, a música, a publicidade e, mais recentemente, a tecnologia e o mundo corporativo: deletar, printar, e-mail, shopping, delivery, home office, feedback. Algumas palavras foram totalmente adaptadas, como xampu (do inglês shampoo, que por sua vez vem do hindi), enquanto outras mantêm a grafia original. O uso de anglicismos provoca debates frequentes, mas os empréstimos são um processo natural e antigo em todas as línguas.
Imigração: italiano, alemão e japonês
A partir do fim do século XIX, o Brasil recebeu grandes ondas de imigrantes europeus e asiáticos, que também deixaram suas marcas.
Italiano
Os imigrantes italianos se concentraram em São Paulo e no Sul. Além de muitas palavras ligadas à culinária, como pizza, lasanha, nhoque, mortadela, polenta e espaguete, o italiano nos deu o cumprimento mais usado nas despedidas brasileiras: tchau, do italiano ciao. Muitos pesquisadores também relacionam traços do sotaque paulistano e de falares do interior do Sul ao contato com os dialetos italianos, como a entonação característica e certas expressões. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, o talian, variedade de base vêneta, ainda é falado por comunidades de descendentes.
Alemão
A imigração alemã, também forte no Sul, deixou marcas regionais e algumas palavras de uso geral, como chope, geralmente relacionado ao alemão Schoppen, possivelmente com intermediação do francês. Em várias cidades catarinenses e gaúchas, variedades do alemão, como o hunsrückisch, continuam vivas.
Japonês
A imigração japonesa começou em 1908, com a chegada do navio Kasato Maru ao porto de Santos, e fez do Brasil o país com a maior comunidade de descendentes de japoneses fora do Japão. Do japonês vieram palavras como caqui, shoyu, saquê, sushi, judô, tatame, karaokê, mangá e, mais recentemente, termos da cultura pop. Curiosamente, a troca também ocorreu no sentido inverso, com palavras portuguesas que entraram no japonês ainda no século XVI, quando comerciantes e missionários portugueses chegaram ao Japão: pan (pão), botan (botão) e karuta (carta de baralho) são alguns exemplos.
Uma língua feita de encontros
O português brasileiro é o resultado de séculos de contato entre povos muito diferentes. A base latina continua sendo o esqueleto da língua, mas o vocabulário e parte de sua sonoridade revelam a presença indígena, a herança africana, a camada árabe medieval e as sucessivas ondas de influência cultural e migratória.
Conhecer essas origens ajuda a entender por que o português do Brasil soa tão diferente do de Portugal em muitos aspectos e por que certas palavras parecem "familiares" quando estudamos outros idiomas. Para explorar essas conexões, compare o português com outras línguas em páginas como português vs. espanhol ou português vs. italiano, ou navegue pelas famílias linguísticas.