Iorubá
Èdè Yorùbá
Língua tonal da África Ocidental, falada por cerca de 45 milhões de pessoas na Nigéria e no Benin, e língua sagrada do candomblé, com forte presença no português da Bahia.
- Falantes nativos
- 45 milhões
- Falantes no total
- 47 milhões
- Oficial em
- 0 países
- Família
- Níger-Congo
- Escrita
- Alfabeto
- Direção
- Esquerda → direita
- Ordem básica
- SVO
- Gêneros
- Nenhum
- Casos
- Nenhum
- Tons
- 3
- Primeiro registro
- c. 1843
- Dificuldade p/ BR
Visão geral
Língua tonal da África Ocidental, falada por cerca de 45 milhões de pessoas na Nigéria e no Benin, e língua sagrada do candomblé, com forte presença no português da Bahia. Pertence à família Níger-Congo (Volta-Níger (Yoruboide)) e é escrito com alfabeto latino com diacríticos. Estima-se que tenha cerca de 45 milhões de falantes nativos e 47 milhões de falantes no total, contando quem o usa como segunda língua.
Características marcantes
- Língua tonal com três tons, indicados por acentos na escrita.
- Uma das línguas africanas com mais falantes nativos, cerca de 45 milhões.
- Gramática sem conjugação, gênero ou artigos.
- Riquíssima tradição oral de provérbios, oríkì (poemas de louvor) e versos do Ifá.
- Sobrevive como língua sagrada no candomblé do Brasil e na santería de Cuba.
Origem e história
O iorubá se formou na região que hoje corresponde ao sudoeste da Nigéria e ao leste do Benin. Segundo a tradição iorubá, a cidade de Ilé-Ifẹ̀ é o lugar onde o mundo foi criado e o berço de todos os reinos iorubás. Arqueologicamente, Ifé foi um grande centro urbano entre os séculos XI e XV, famoso por suas esculturas em bronze e terracota. A língua se desenvolveu como um contínuo de dialetos falados por diversos reinos que compartilhavam cultura e religião, mas que só passaram a se identificar coletivamente como "iorubás" no século XIX.
Entre os séculos XVII e XVIII, o Império de Oyó tornou-se o reino iorubá mais poderoso, com uma forte cavalaria e rotas de comércio que chegavam ao litoral. O nome "Yorùbá" era usado inicialmente para os habitantes de Oyó e depois passou a designar todo o grupo. Nessa época, a língua se transmitia principalmente pela oralidade, em mitos, provérbios, poesia de louvor (oríkì) e no vasto corpus do Ifá, sistema de adivinhação que reúne milhares de versos.
No início do século XIX, o colapso do Império de Oyó e uma série de guerras levaram à escravização de um grande número de iorubás. Muitos foram enviados à Bahia e a Cuba, onde passaram a ser chamados de "nagôs" e "lucumís". Em Salvador, os nagôs tiveram papel central na formação do candomblé de nação ketu e participaram da Revolta dos Malês, em 1835. Terreiros como a Casa Branca do Engenho Velho, o Gantois e o Ilê Axé Opô Afonjá preservaram cantigas, rezas e um vocabulário ritual iorubá que atravessou quase dois séculos.
A escrita do iorubá em alfabeto latino foi desenvolvida no século XIX por missionários, com destaque para Samuel Ajayi Crowther, um iorubá que havia sido escravizado, libertado e que se tornou o primeiro bispo anglicano africano. Ele publicou um vocabulário e uma gramática em 1843 e liderou a tradução da Bíblia, concluída em 1884. Em 1938, D. O. Fágúnwà publicou "Ògbójú Ọdẹ nínú Igbó Irúnmọlẹ̀", um dos primeiros romances escritos numa língua africana.
No século XX, a ortografia foi revisada por comissões governamentais nigerianas, e o iorubá passou a ser ensinado em escolas e universidades. Hoje ele tem forte presença no rádio, na televisão, na música e no cinema de Nollywood, que produz muitos filmes em iorubá. Em 2005, a Unesco reconheceu o sistema de adivinhação Ifá como obra-prima do patrimônio oral e imaterial da humanidade. No Brasil, o Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA oferece cursos de iorubá há décadas.
Linha do tempo
- séc. XI–XVIlé-Ifẹ̀ floresce como centro urbano e artístico.
- séc. XVIIExpansão do Império de Oyó.
- c. 1817–1836Colapso de Oyó; muitos iorubás são escravizados e levados à Bahia e a Cuba.
- 1835Revolta dos Malês, em Salvador, com participação de muitos nagôs.
- 1843Samuel Ajayi Crowther publica gramática e vocabulário do iorubá.
- 1884Conclusão da primeira tradução completa da Bíblia para o iorubá.
- 1938Fágúnwà publica um dos primeiros romances em língua africana.
- 2005Unesco proclama o sistema Ifá patrimônio oral e imaterial da humanidade.
Onde o iorubá é falado
O iorubá é falado principalmente no sudoeste da Nigéria, nos estados de Lagos, Oyo, Ogun, Ondo, Osun, Ekiti e em parte de Kwara e Kogi, onde é a língua majoritária. Também é falado no leste do Benin e em partes do Togo. Na Nigéria, cuja língua oficial é o inglês, o iorubá é uma das três grandes línguas nacionais, ao lado do hauçá e do igbo. Fora da África, sobrevive como língua ritual no candomblé brasileiro, na santería cubana (onde é chamado de lucumí) e em religiões de matriz iorubá nos Estados Unidos e no Caribe, além de ser falado por imigrantes nigerianos no Reino Unido e nos Estados Unidos.
Regional em
Nigéria (sudoeste), Benin
Minoritário em
Togo, Brasil (uso litúrgico), Cuba (lucumí, litúrgico)
Organismos internacionais: Estados do sudoeste da Nigéria (uso administrativo e educacional).
Regulação: Não há academia oficial; a ortografia padrão foi definida por comissões educacionais do governo nigeriano · Vitalidade: Segura
Sistema de escrita
- Sistema
- Alfabeto latino com diacríticos
- Tipo
- Alfabeto
- Escritas
- Latino
- Símbolos básicos
- 25
- Direção
- Esquerda → direita
25 letras. O iorubá não usa C, Q, V, X e Z, mas acrescenta Ẹ (e aberto), Ọ (o aberto), Ṣ (som de "ch") e o dígrafo GB. Os tons são indicados por acentos: agudo para o tom alto, grave para o baixo, e ausência de acento para o tom médio.
Escrito da esquerda para a direita. Os acentos tonais e os pontos embaixo das letras fazem parte da ortografia padrão, embora muitas vezes sejam omitidos em mensagens informais e nas redes sociais.
Pronúncia
O iorubá é uma língua tonal com três tons de registro: alto, médio e baixo. A mesma sequência de sons pode ter significados completamente diferentes conforme a melodia: "ọkọ́" (enxada), "ọkọ̀" (veículo, barco) e "ọkọ" (marido) se escrevem com as mesmas letras e só se distinguem pelo tom. Há sete vogais orais, entre elas o "ẹ" e o "ọ" abertos, que soam como em "pé" e "pó", e vogais nasais. Algumas consoantes são novas para o brasileiro: o "gb" e o "p" são labiovelares, pronunciados fechando os lábios e o fundo da boca ao mesmo tempo, e o "p" do iorubá, na verdade, soa como um "kp". O "ṣ" corresponde ao nosso "ch", e o "j", ao "dj" de "dia" no sotaque carioca.
- Vogais (aprox.)
- 12
- Consoantes (aprox.)
- 18
- Tonal
- Sim, 3 tons
- Acento
- Não há acento de intensidade; a melodia das palavras é dada pelos tons
O que costuma ser difícil para brasileiros: Os três tons, as consoantes labiovelares gb e p (kp) e a distinção entre vogais abertas e fechadas.
Estrutura gramatical
O iorubá é uma língua predominantemente isolante: as palavras quase não mudam de forma, e o tempo verbal é indicado por partículas colocadas antes do verbo. "Mo lọ" significa "eu fui", "mo ń lọ", "eu estou indo", e "màá lọ", "eu irei". A ordem básica é sujeito-verbo-objeto, como no português. Não há artigos, e o plural costuma ficar implícito no contexto ou é marcado pela partícula "àwọn" antes do substantivo. Uma característica marcante é o uso de verbos em série, em que dois ou mais verbos se encadeiam para expressar uma única ação ("ó mú ìwé wá", literalmente "ele pegou livro veio", isto é, "ele trouxe o livro"). A formação de palavras por composição e prefixação é muito produtiva, e muitos nomes próprios são frases inteiras com significado.
- Ordem
- SVO
- Morfologia
- Isolante
- Casos
- Nenhum
- Gêneros
- Nenhum
- Artigos
- Não
Gênero gramatical: Não há gênero gramatical. O pronome de terceira pessoa "ó" (ou "òun") serve para "ele" e "ela", e não há concordância de gênero em adjetivos. Quando é preciso especificar, acrescentam-se palavras como "ọkùnrin" (homem) ou "obìnrin" (mulher).
Destaques da gramática
- Tempo e aspecto indicados por partículas antes do verbo, sem conjugação.
- Verbos seriais, em que vários verbos formam uma única ação ("mú... wá" = trazer).
- Pronomes de respeito: "ẹ" (vós) é usado com pessoas mais velhas ou desconhecidas no lugar de "o" (você).
- Formação de substantivos a partir de verbos com prefixos vocálicos (jẹ, "comer" → oúnjẹ, "comida").
- Nomes próprios que são frases completas, como "Olúwaseun" ("Deus fez algo por nós").
Dificuldade para brasileiros
Difícil · cerca de 1.300 horas de estudo até o nível intermediário
Para brasileiros, o maior desafio do iorubá são os três tons, que exigem treino de ouvido desde o início, e as consoantes labiovelares. Em compensação, a gramática é bem mais simples do que a do português: não há conjugação, gênero ou artigos. O brasileiro também tem uma vantagem curiosa: já conhece dezenas de palavras de origem iorubá por meio do candomblé, da culinária baiana e da música. O Foreign Service Institute (FSI) classifica o iorubá na categoria III, com cerca de 44 semanas de estudo para anglófonos.
Referência: o Foreign Service Institute (EUA) classifica este idioma na categoria 3 de dificuldade para falantes de inglês (1 = mais próximo do inglês, 4 = mais distante). A estimativa em horas acima é editorial e pensada para brasileiros.
Palavras em iorubá
| Iorubá | Pronúncia aproximada | Significado | Ouvir |
|---|---|---|---|
| omi | ô-MI | água | |
| ilé | i-LÊ | casa | |
| ọ̀rẹ́ | Ó-ré | amigo | |
| oúnjẹ | ô-UN-djé | comida | |
| oòrùn | ô-ô-RUN | sol | |
| ìfẹ́ | i-FÉ | amor | |
| ìwé | i-UÊ | livro | |
| àṣẹ | a-CHÉ | força vital, poder de realização (origem de "axé") | |
| òrìṣà | ó-ri-CHÁ | divindade (origem de "orixá") | |
| àkàrà | a-ka-RÁ | bolinho frito de feijão (origem de "acarajé") |
Contando de 1 a 5
- 1ọ̀kan
- 2èjì
- 3ẹ̀ta
- 4ẹ̀rin
- 5àrún
Frases úteis
A pronúncia aproximada foi escrita para leitores brasileiros; a sílaba em maiúsculas é a tônica. O botão 🔊 usa a voz do seu navegador, quando disponível.
| Português | Iorubá | Pronúncia | Ouvir |
|---|---|---|---|
| Olá | Báwo ni | BA-uô ni | |
| Bom dia | Ẹ káàárọ̀ | é KA-a-ró | |
| Boa noite | Ó dàárọ̀ | ô DA-a-ró | |
| Tchau | Ó dàbọ̀ | ô DA-bó | |
| Como vai? | Ṣé dáadáa ni? | CHÊ DA-a-da-a ni | |
| Meu nome é Ana | Orúkọ mi ni Ana | ô-RU-kó mi ni A-na | |
| Prazer em conhecer | Inú mi dùn láti mọ̀ ọ́ | i-NU mi DUN LA-ti MÓ ó | |
| Obrigado | Ẹ ṣé | é CHÉ | |
| Por favor | Ẹ jọ̀ọ́ | é DJÓ-ó | |
| Desculpe | Ẹ má bínú | é MA BI-nu | |
| Sim | Bẹ́ẹ̀ ni | BÉ-é ni | |
| Não | Rárá | RA-ra | |
| Não entendo | Kò yé mi | kô IÊ mi | |
| Quanto custa? | Èló ni? | ê-LÔ ni | |
| Onde fica o banheiro? | Níbo ni ilé ìgbọ̀nsẹ̀ wà? | NI-bô ni i-LÊ i-GBÓN-sé UA | |
| Eu te amo | Mo nífẹ̀ẹ́ rẹ | mô ni-FÉ-é ré | |
| Saúde! (brinde) | Àlàáfíà! | a-la-A-fi-a | |
| Bem-vindo | Ẹ kú àbọ̀ | é KU a-BÓ |
Gbogbo ènìyàn ni a bí ní òmìnira; iyì àti ẹ̀tọ́ kọ̀ọ̀kan sì dọ́gba.
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Semelhanças com outros idiomas
O iorubá pertence ao ramo volta-níger da família Níger-Congo, próximo do itsekiri e do igala, e mais distante do igbo, do edo e do fon, com os quais divide traços como os tons e os verbos seriais. É aparentado, de forma remota, às línguas bantas, como o suaíli e o zulu. Do árabe recebeu termos ligados ao Islã, e do inglês, muitos empréstimos modernos. No Brasil, o iorubá deixou uma marca profunda no vocabulário do português, sobretudo na Bahia: "axé", "orixá", "acarajé", "abará", "agogô", "ebó" e "abadá" são algumas das palavras que vieram dele.
Idiomas estruturalmente mais próximos
Próximos · comparar →
Próximos · comparar →
Algumas semelhanças · comparar →
Muito diferentes · comparar →
Muito diferentes · comparar →
Índice de afinidade estrutural do Aigenip. Como é calculado.
Curiosidades sobre o iorubá
- "Acarajé" vem do iorubá "àkàrà" (bolinho frito) + "jẹ" (comer): nas ruas de Lagos e de Salvador, o pregão das vendedoras anunciava algo como "venha comer acará".
- Os nomes dos orixás cultuados no Brasil são iorubás: Ṣàngó (Xangô), Ògún (Ogum), Ọ̀ṣun (Oxum), Yemọja (Iemanjá) e Ọ̀ṣọ́ọ̀sì (Oxóssi), entre outros.
- A palavra "abadá", usada no carnaval de Salvador, vem de "agbádá", uma túnica larga tradicional dos homens iorubás.
- Os nomes próprios iorubás contam histórias: "Babátúndé" significa "o pai voltou" e costuma ser dado a um menino nascido pouco depois da morte do avô.
- Em Cuba, a variedade litúrgica do iorubá, o lucumí, é usada nos cantos da santería, e muitos cantos são reconhecíveis por praticantes do candomblé brasileiro.
- Por ser tonal, o iorubá pode ser "falado" por tambores: o dùndún, conhecido como tambor falante, imita a melodia das frases e transmite mensagens e louvores.
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