Guarani
Avañe'ẽ
Língua indígena da família tupi-guarani, oficial no Paraguai, onde é falada pela maioria da população, e presente no Brasil em aldeias e em milhares de topônimos.
- Falantes nativos
- 5,0 milhões
- Falantes no total
- 7,0 milhões
- Oficial em
- 2 países
- Família
- Tupi
- Escrita
- Alfabeto
- Direção
- Esquerda → direita
- Ordem básica
- SVO
- Gêneros
- Nenhum
- Casos
- Nenhum
- Tons
- Não tonal
- Primeiro registro
- c. 1603
- Dificuldade p/ BR
Visão geral
Língua indígena da família tupi-guarani, oficial no Paraguai, onde é falada pela maioria da população, e presente no Brasil em aldeias e em milhares de topônimos. Pertence à família Tupi (Tupi-Guarani (subgrupo guarani)) e é escrito com alfabeto latino. Estima-se que tenha cerca de 5,0 milhões de falantes nativos e 7,0 milhões de falantes no total, contando quem o usa como segunda língua.
Características marcantes
- É a única língua indígena das Américas falada pela maioria da população de um país, inclusive não indígena.
- Tem tempo verbal aplicado a substantivos ("-kue" e "-rã").
- Distingue um "nós" inclusivo e um "nós" exclusivo.
- Possui vogais nasais e a vogal central "y", inexistente em português.
- Deixou milhares de topônimos no Brasil, no Paraguai e na Argentina.
Origem e história
O guarani descende do proto-tupi-guarani, língua reconstruída que se diversificou há cerca de dois milênios, provavelmente no sudoeste da Amazônia. Povos guarani migraram para o sul e ocuparam as bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai e o litoral sul do atual Brasil, enquanto povos tupi se espalharam pela costa atlântica mais ao norte. Quando os europeus chegaram, no início do século XVI, o guarani era falado por centenas de milhares de pessoas numa área que ia do litoral de São Paulo e de Santa Catarina até o Paraguai.
Após a fundação de Assunção, em 1537, os colonizadores espanhóis, em sua maioria homens, formaram famílias com mulheres guarani, e seus filhos cresceram falando a língua materna. Assim, o guarani passou a ser a língua cotidiana de toda a sociedade colonial paraguaia, e não apenas dos povos indígenas, algo único nas Américas.
A partir de 1609, missionários jesuítas fundaram as reduções, aldeamentos que chegaram a reunir dezenas de milhares de guaranis em territórios hoje pertencentes ao Paraguai, à Argentina e ao Brasil, como São Miguel das Missões (RS). Os jesuítas escreveram gramáticas e dicionários, como o "Tesoro de la lengua guaraní", de Antonio Ruiz de Montoya (1639), e imprimiram livros em guarani nas próprias missões. Com a expulsão dos jesuítas, em 1767, as reduções entraram em declínio, mas a língua seguiu viva no Paraguai.
Nas guerras do século XIX e XX, o guarani ganhou valor de símbolo nacional paraguaio. Durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870), contra Brasil, Argentina e Uruguai, circularam jornais de trincheira em guarani, e na Guerra do Chaco (1932–1935), contra a Bolívia, a língua foi usada nas comunicações militares. Mesmo assim, por muito tempo seu uso foi desencorajado nas escolas.
A Constituição paraguaia de 1967 reconheceu o guarani como língua nacional, e a de 1992 o tornou língua oficial ao lado do espanhol. A Lei de Línguas de 2010 criou a Academia da Língua Guarani, e hoje a maioria dos paraguaios é bilíngue. No Brasil, povos guarani como os Kaiowá, os Ñandeva e os Mbyá mantêm suas variedades em aldeias do Mato Grosso do Sul ao Rio de Janeiro, e o município de Tacuru (MS) adotou o guarani como língua cooficial em 2010.
Linha do tempo
- 1537Fundação de Assunção, no coração do território guarani.
- 1603Sínodo de Assunção aprova o catecismo em guarani de frei Luis de Bolaños.
- 1609Início das reduções jesuíticas entre os guaranis.
- 1639Antonio Ruiz de Montoya publica o "Tesoro de la lengua guaraní".
- 1767Expulsão dos jesuítas da América espanhola.
- 1864–1870Guerra da Tríplice Aliança; jornais de trincheira circulam em guarani.
- 1992Nova Constituição torna o guarani língua oficial do Paraguai.
- 2010Lei de Línguas do Paraguai cria a Academia da Língua Guarani.
Onde o guarani é falado
O guarani é falado principalmente no Paraguai, onde a grande maioria da população o entende e muitos o têm como primeira língua, especialmente nas áreas rurais. Também é falado na Bolívia, onde é uma das línguas oficiais do Estado, no nordeste da Argentina (em Corrientes é cooficial desde 2004) e no Brasil, por comunidades indígenas guarani no Mato Grosso do Sul, no Paraná, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nas cidades brasileiras da fronteira com o Paraguai, como Ponta Porã, o guarani e o jopará fazem parte do cotidiano.
Oficial em
Paraguai
Cooficial em
Bolívia
Regional em
Argentina (Corrientes e Misiones), Brasil (MS, PR, SC, RS, SP, RJ)
Organismos internacionais: Mercosul (língua oficial desde 2006), Paraguai, Bolívia.
Regulação: Academia da Língua Guarani (Guarani Ñe'ẽ Rerekuapavẽ), no Paraguai · Vitalidade: Segura
Sistema de escrita
- Sistema
- Alfabeto latino
- Tipo
- Alfabeto
- Escritas
- Latino
- Símbolos básicos
- 33
- Direção
- Esquerda → direita
O alfabeto oficial do guarani paraguaio tem 33 letras, entre elas dígrafos como ch, mb, nd, ng, nt e rr, as vogais nasais com til (ã, ẽ, ĩ, õ, ũ, ỹ) e o "puso" ('), que representa uma parada glotal, como a pausa no meio de "uh-oh". A letra "y" é uma vogal, pronunciada no centro da boca.
Escrito da esquerda para a direita. A língua foi escrita pela primeira vez por missionários jesuítas e franciscanos nos séculos XVI e XVII; a ortografia atual foi padronizada no século XX.
Pronúncia
O guarani tem seis vogais orais (a, e, i, o, u e y) e seis nasais. A mais estranha para o brasileiro é o "y", uma vogal central fechada, pronunciada com a boca na posição do "i" e a língua recuada, como se estivesse entre "i" e "u". A nasalidade é um traço fundamental: numa palavra com vogal nasal tônica, os sons vizinhos também tendem a se nasalizar, fenômeno chamado harmonia nasal. O "puso" (') é uma breve interrupção da voz que distingue palavras, e o "j" soa como o "dj" de "dia" no sotaque carioca. O acento cai geralmente na última sílaba, e quando não cai, é marcado com acento agudo ("réra", nome). O "h" é aspirado, como no inglês "house".
- Vogais (aprox.)
- 12
- Consoantes (aprox.)
- 16
- Tonal
- Não
- Acento
- Acento geralmente na última sílaba; exceções marcadas com acento agudo
O que costuma ser difícil para brasileiros: A vogal central "y", as vogais nasais com harmonia nasal e a parada glotal (puso).
Estrutura gramatical
O guarani é uma língua aglutinante, em que prefixos e sufixos se juntam a uma raiz para formar palavras longas e precisas. Os verbos recebem prefixos de pessoa ("a-guata", eu caminho; "re-guata", você caminha; "o-guata", ele caminha) e sufixos que indicam tempo, aspecto, negação e intenção. Um traço notável é o tempo nos substantivos: o sufixo "-kue" indica algo que já foi ("che róga kue", minha antiga casa) e "-rã" algo que será ("che róga rã", minha futura casa). O guarani distingue um "nós" inclusivo, que inclui o ouvinte ("ñande"), de um "nós" exclusivo, que o exclui ("ore"). A ordem básica é sujeito-verbo-objeto, mas bastante flexível.
- Ordem
- SVO
- Morfologia
- Aglutinante
- Casos
- Nenhum
- Gêneros
- Nenhum
- Artigos
- Não
Gênero gramatical: Não há gênero gramatical, nem artigos nativos. Para especificar o sexo, usam-se palavras como "kuimba'e" (homem, macho) e "kuña" (mulher, fêmea). No jopará, a mistura cotidiana com o espanhol, é comum o uso dos artigos espanhóis "la" e "lo".
Destaques da gramática
- Tempo nominal: "-kue" (passado) e "-rã" (futuro) aplicados a substantivos.
- "Nós" inclusivo ("ñande") e exclusivo ("ore"), distinção inexistente em português.
- Negação circunfixa, que envolve o verbo: "aguata" (caminho) → "ndaguatái" (não caminho).
- Posposições em vez de preposições: "óga-pe" = "na casa" (literalmente "casa-em").
- Verbos divididos em classes conforme o tipo de prefixo pessoal (areales, aireales e chendales, na gramática tradicional).
Dificuldade para brasileiros
Moderado · cerca de 1.000 horas de estudo até o nível intermediário
Para brasileiros, o guarani tem a vantagem do alfabeto latino, de sons em grande parte familiares e de um vocabulário que ecoa em milhares de nomes de lugares do Brasil. As dificuldades estão na vogal "y", na harmonia nasal e na gramática aglutinante, com lógica muito diferente da do português. Materiais didáticos existem, sobretudo em espanhol, e cursos são oferecidos em universidades brasileiras e paraguaias. A língua não é classificada pelo Foreign Service Institute (FSI).
Palavras em guarani
| Guarani | Pronúncia aproximada | Significado | Ouvir |
|---|---|---|---|
| y | Ü (vogal central) | água | |
| óga | Ó-ga | casa | |
| angirũ | a-ngi-RŨ | amigo | |
| tembi'u | tem-bi-'U | comida | |
| kuarahy | kua-ra-HÜ | sol | |
| mborayhu | mbo-rai-HU | amor | |
| ita | i-TA | pedra (como em Itaipu e Itaquera) | |
| guasu | gua-SU | grande (como em Iguaçu, "água grande") | |
| ka'a | ka-'A | erva, mato; também a erva-mate | |
| tereré | te-re-RÉ | mate gelado, bebida típica do Paraguai e do MS |
Contando de 1 a 5
- 1peteĩ
- 2mokõi
- 3mbohapy
- 4irundy
- 5po
Frases úteis
A pronúncia aproximada foi escrita para leitores brasileiros; a sílaba em maiúsculas é a tônica. O botão 🔊 usa a voz do seu navegador, quando disponível.
| Português | Guarani | Pronúncia | Ouvir |
|---|---|---|---|
| Olá | Mba'éichapa | mba-ÊI-cha-pa | |
| Bom dia | Mba'éichapa nde pyhareve | mba-ÊI-cha-pa nde pü-ha-re-VÊ | |
| Boa noite | Mba'éichapa nde pyhare | mba-ÊI-cha-pa nde pü-ha-RÊ | |
| Tchau | Jajohecha peve | dja-djo-he-CHA pe-VÊ | |
| Como vai? | Mba'éichapa reiko? | mba-ÊI-cha-pa rei-KÔ | |
| Meu nome é Ana | Che réra Ana | che RÊ-ra A-na | |
| Prazer em conhecer | Avy'a roikuaávo | a-vü-'A roi-kua-A-vo | |
| Obrigado | Aguyje | a-gu-ü-DJÊ | |
| Por favor | Ikatúpa | i-ka-TU-pa | |
| Desculpe | Eñyrõ chéve | e-nhü-RÕ CHÊ-ve | |
| Sim | Héẽ | he-Ẽ | |
| Não | Nahániri | na-HA-ni-ri | |
| Não entendo | Ndaikũmbýi | ndai-kũm-BÜ-i | |
| Quanto custa? | Mboýpa hepy? | mbo-Ü-pa he-PÜ | |
| Onde fica o banheiro? | Moõpa oĩ baño? | mo-Õ-pa o-Ĩ BA-nho | |
| Eu te amo | Rohayhu | ro-hai-HU | |
| Saúde! (brinde) | Tesãi! | te-SÃI | |
| Bem-vindo | Eg̃uahẽporã | e-ngua-hẽ-po-RÃ |
Mayma yvypóra ou ko yvy ári iñapytyʼyre ha peteĩcha teĩcha, idignidad ha iderécho jeguerekópe.
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Semelhanças com outros idiomas
O guarani é parente próximo do tupi antigo, a língua falada no litoral brasileiro no século XVI, e do nheengatu, ainda falado na Amazônia. Os dois ramos compartilham grande parte do vocabulário básico: "água" é "y" em guarani e "y" (ou "ʼy") em tupi antigo; "pedra" é "ita" em ambos. Por isso, muitos topônimos brasileiros de origem tupi são facilmente interpretados por falantes de guarani. O guarani paraguaio recebeu muitos empréstimos do espanhol, e a forma falada no dia a dia, o jopará, mistura as duas línguas livremente. Palavras de origem tupi-guarani chegaram ao português e a outras línguas europeias, como "jaguar", "capivara", "piranha", "tapioca" e "mandioca".
Idiomas estruturalmente mais próximos
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Índice de afinidade estrutural do Aigenip. Como é calculado.
Curiosidades sobre o guarani
- Muitos nomes de lugares do Sul e do Centro-Oeste do Brasil têm origem tupi-guarani: "Iguaçu" vem de "y" (água) + "guasu" (grande), e "Paraná" costuma ser traduzido como "semelhante ao mar" ou "rio grande".
- O nome da usina de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai, vem do guarani e é geralmente traduzido como "pedra que canta" ou "pedra que soa".
- A moeda do Paraguai se chama guarani, em homenagem ao povo e à língua, e o país celebra o Dia da Língua Guarani em 25 de agosto.
- O tereré, mate gelado muito consumido no Paraguai e no Mato Grosso do Sul, foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2020.
- Palavras como "jaguar", "piranha" e "tapioca" passaram do tupi-guarani para o português e daí para o inglês e outras línguas.
- O guarani é uma das línguas oficiais do Mercosul, ao lado do português e do espanhol.
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