Amárico
አማርኛ Amarəñña
Língua semítica da Etiópia, escrita no alfabeto silábico ge'ez, falada por cerca de 57 milhões de pessoas como primeira ou segunda língua.
- Falantes nativos
- 32 milhões
- Falantes no total
- 57 milhões
- Oficial em
- 1 país
- Família
- Afro-Asiática
- Escrita
- Abugida (alfassilabário)
- Direção
- Esquerda → direita
- Ordem básica
- SOV
- Gêneros
- 2
- Casos
- 2
- Tons
- Não tonal
- Primeiro registro
- c. 1330
- Dificuldade p/ BR
Visão geral
Língua semítica da Etiópia, escrita no alfabeto silábico ge'ez, falada por cerca de 57 milhões de pessoas como primeira ou segunda língua. Pertence à família Afro-Asiática (Semítica (Semítica etíope do sul)) e é escrito com escrita ge'ez (fidel), uma abugida. Estima-se que tenha cerca de 32 milhões de falantes nativos e 57 milhões de falantes no total, contando quem o usa como segunda língua.
Características marcantes
- É a segunda língua semítica mais falada do mundo, depois do árabe.
- Usa o fidel, uma das poucas escritas originárias da África ainda em uso amplo.
- Tem consoantes ejetivas, pronunciadas com um estalo da glote.
- Coloca o verbo no fim da frase, diferentemente da maioria das línguas semíticas.
- Possui formas gramaticais específicas de respeito e cortesia.
Origem e história
O amárico descende de línguas semíticas trazidas da Península Arábica para o Chifre da África há mais de dois milênios, que se misturaram às línguas cushíticas locais. Seu nome vem da região de Amhara, no planalto central etíope. Enquanto o ge'ez era a língua escrita do reino de Axum e da Igreja Ortodoxa Etíope, o amárico era falado no cotidiano e só ganhou prestígio quando se tornou a língua da corte real, a partir do fim do século XIII.
O reino de Axum, que floresceu nos primeiros séculos da nossa era, usava o ge'ez em inscrições e, após a conversão do rei Ezana ao cristianismo no século IV, também em textos religiosos. O ge'ez deixou de ser falado por volta do século X, mas continua sendo a língua litúrgica da Igreja Ortodoxa Etíope, como o latim na Igreja Católica.
Com a ascensão da dinastia salomônica, em 1270, o amárico passou a ser chamado de "lisanä nəgus", a "língua do rei". Os registros escritos mais antigos são canções em louvor a reis do século XIV. Por muitos séculos, porém, a escrita continuou dominada pelo ge'ez, e o amárico era usado principalmente na administração e na fala.
No século XIX, o imperador Tewodros II incentivou o uso do amárico como língua escrita e de Estado, e a primeira Bíblia completa em amárico foi impressa em 1840. No século XX, sob Haile Selassie, o amárico foi promovido como língua nacional, usada na educação, na imprensa e no governo. A Etiópia, que resistiu à colonização ao derrotar a Itália em Adwa, em 1896, manteve o amárico como língua de Estado, algo raro na África.
A Constituição federal de 1995 reconheceu o direito de cada região escolher sua própria língua oficial, e o amárico passou a ser a língua de trabalho do governo federal. Mesmo não sendo a língua materna mais falada do país (o oromo tem mais falantes nativos), o amárico continua sendo a principal língua de comunicação entre os diversos povos etíopes e tem uma produção literária, musical e cinematográfica intensa.
Linha do tempo
- séc. I–VIIReino de Axum usa o ge'ez como língua escrita.
- séc. IVConversão do rei Ezana ao cristianismo; o ge'ez se torna língua religiosa.
- 1270Dinastia salomônica chega ao poder e o amárico se torna a "língua do rei".
- séc. XIVCanções reais, os registros escritos mais antigos do amárico.
- 1840Impressão da primeira Bíblia completa em amárico.
- 1855Tewodros II promove o amárico como língua escrita do Estado.
- 1896Vitória etíope em Adwa preserva a independência do país.
- 1995Nova Constituição define o amárico como língua de trabalho federal.
Onde o amárico é falado
O amárico é falado principalmente na Etiópia, onde é a língua materna de cerca de um terço da população e a segunda língua de muitos milhões de pessoas, especialmente nas cidades. É língua oficial da região de Amhara e da capital, Adis Abeba, além de língua de trabalho do governo federal. Há comunidades importantes em Israel, formadas por judeus etíopes (Beta Israel), nos Estados Unidos, sobretudo em Washington, e em países do Golfo Pérsico e da Europa.
Oficial em
Etiópia
Minoritário em
Eritreia, Israel, Estados Unidos
Organismos internacionais: Governo federal da Etiópia (língua de trabalho).
Regulação: Não há academia reguladora formal; a padronização é feita por órgãos educacionais e universidades etíopes · Vitalidade: Segura
Sistema de escrita
- Sistema
- Escrita ge'ez (fidel), uma abugida
- Tipo
- Abugida (alfassilabário)
- Escritas
- Ge'ez (etíope)
- Símbolos básicos
- 33
- Direção
- Esquerda → direita
O amárico usa o fidel (ፊደል), sistema herdado do ge'ez, a antiga língua da Etiópia. Cada símbolo representa uma sílaba: há cerca de 33 consoantes básicas, e cada uma aparece em sete formas ("ordens"), conforme a vogal que a acompanha, com pequenos traços e argolas acrescentados ao desenho. Somando as formas labializadas, o conjunto passa de 250 caracteres.
Escrito da esquerda para a direita, ao contrário do árabe e do hebraico, seus parentes semíticos. Tradicionalmente as palavras eram separadas por um sinal de dois pontos (፡) e as frases terminavam com um sinal de quatro pontos (።), ainda usado hoje.
Pronúncia
O amárico tem sete vogais e um conjunto de consoantes que inclui as ejetivas, sons produzidos com um pequeno "estalo" da glote, como em ጠ (ṭ), ቀ (q), ጨ (č') e ጸ (ṣ). Para o brasileiro, elas soam como um "t" ou um "k" mais secos e explosivos. A geminação, isto é, a duplicação de uma consoante, muda o significado das palavras, mas não é indicada na escrita comum: o leitor precisa conhecer a palavra para saber se deve prolongar o som. Uma vogal central, parecida com o "e" átono de "leque" no português europeu, aparece com frequência e é representada na romanização por "ə".
- Vogais (aprox.)
- 7
- Consoantes (aprox.)
- 27
- Tonal
- Não
- Acento
- Acento fraco, pouco marcado e sem função distintiva
O que costuma ser difícil para brasileiros: Consoantes ejetivas (ጠ, ቀ, ጨ, ጸ, ጰ), geminação não marcada na escrita e a vogal central ə.
Estrutura gramatical
Como o árabe e o hebraico, o amárico constrói palavras a partir de raízes consonantais, mas, ao contrário deles, coloca o verbo no fim da frase (sujeito-objeto-verbo), uma influência das línguas cushíticas vizinhas. Os verbos recebem prefixos e sufixos que indicam pessoa, gênero, número e aspecto. O artigo definido é um sufixo: "bet" é "casa" e "betu", "a casa". O objeto direto definido recebe a terminação -n ("betun" = "a casa", como objeto), e a posse é indicada pelo prefixo yä- ("yä-Ana bet" = "a casa de Ana"). Há ainda um sistema de tratamento respeitoso, com formas verbais próprias para falar com ou sobre pessoas mais velhas e autoridades.
- Ordem
- SOV
- Morfologia
- Fusional (flexiva)
- Casos
- 2
- Gêneros
- 2
- Artigos
- Sim
Gênero gramatical: Masculino e feminino. O feminino também é usado de forma afetiva ou para coisas pequenas, e alguns substantivos podem ser tratados nos dois gêneros. A segunda pessoa distingue "você" masculino (antä) e feminino (anči), além de uma forma de respeito (ərswo).
Destaques da gramática
- Ordem sujeito-objeto-verbo, com o verbo sempre no fim da frase.
- Artigo definido como sufixo: -u para o masculino e -wa (ou -itu) para o feminino.
- Marcação do objeto direto definido com o sufixo -n.
- Formas verbais de respeito para se dirigir a pessoas mais velhas ou de posição social elevada.
- Verbos compostos muito frequentes, formados com "dizer" (alä): "zəmm alä" significa literalmente "dizer silêncio", ou seja, "ficar calado".
Dificuldade para brasileiros
Difícil · cerca de 1.500 horas de estudo até o nível intermediário
Para brasileiros, o maior obstáculo inicial é o fidel, com centenas de caracteres silábicos, embora sua lógica seja regular e possa ser aprendida em algumas semanas. Depois vêm as consoantes ejetivas, a ordem sujeito-objeto-verbo e a morfologia verbal rica. Os materiais didáticos em português são escassos, o que obriga a estudar em inglês. O Foreign Service Institute (FSI) classifica o amárico na categoria III, com cerca de 44 semanas de estudo para anglófonos.
Referência: o Foreign Service Institute (EUA) classifica este idioma na categoria 3 de dificuldade para falantes de inglês (1 = mais próximo do inglês, 4 = mais distante). A estimativa em horas acima é editorial e pensada para brasileiros.
Palavras em amárico
| Amárico | Pronúncia aproximada | Significado | Ouvir |
|---|---|---|---|
| ሰላም | se-LAAM | paz (também usado como cumprimento) | |
| ውሃ | U-ha | água | |
| ቤት | BET | casa | |
| ቡና | BU-na | café | |
| እንጀራ | in-DJE-ra | injera, pão fermentado típico | |
| ጓደኛ | gua-DE-nha | amigo | |
| ፀሐይ | TSE-hai | sol | |
| ልብ | LIBB | coração | |
| መጽሐፍ | mets-HAF | livro | |
| ፍቅር | FI-kir | amor |
Contando de 1 a 5
- 1አንድ (and)
- 2ሁለት (hulät)
- 3ሦስት (sost)
- 4አራት (arat)
- 5አምስት (amməst)
Frases úteis
A pronúncia aproximada foi escrita para leitores brasileiros; a sílaba em maiúsculas é a tônica. O botão 🔊 usa a voz do seu navegador, quando disponível.
| Português | Amárico | Pronúncia | Ouvir |
|---|---|---|---|
| Olá | ሰላም | se-LAAM | |
| Bom dia | እንደምን አደርክ? | in-de-MIN a-DERK | |
| Boa noite | ደህና እደር | DEH-na i-DER | |
| Tchau | ደህና ሁን | DEH-na HUN | |
| Como vai? | እንደምን ነህ? | in-de-MIN NEH | |
| Meu nome é Ana | ስሜ አና ነው | si-MÊ A-na NEU | |
| Prazer em conhecer | ስለተዋወቅን ደስ ብሎኛል | si-le-te-ua-UE-kin DES bi-lo-NHAL | |
| Obrigado | አመሰግናለሁ | a-me-se-gui-NA-le-hu | |
| Por favor | እባክህ | i-BA-kih | |
| Desculpe | ይቅርታ | ii-KIR-ta | |
| Sim | አዎ | A-uo | |
| Não | አይ | AI | |
| Não entendo | አልገባኝም | al-ge-BA-nhim | |
| Quanto custa? | ስንት ነው? | SINT NEU | |
| Onde fica o banheiro? | ሽንት ቤት የት ነው? | CHINT BET IET NEU | |
| Eu te amo | እወድሃለሁ | i-ue-di-HA-le-hu | |
| Saúde! (brinde) | ለጤናችን! | le-TÊ-na-tchin | |
| Bem-vindo | እንኳን ደህና መጣህ | in-KUAN DEH-na me-TAH |
የሰው ልጅ ሁሉ ሲወለድ ነጻና በክብርና በመብትም እኩልነት ያለው ነው።
Yäsäw ləǧ hulu siwäläd näṣanna bäkəbərənna bämäbtəm əkkulənnät yalläw näw.
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Semelhanças com outros idiomas
O amárico é uma língua semítica, parente do árabe, do hebraico e sobretudo do tigrínia e do ge'ez, a língua clássica da Etiópia. Algumas palavras revelam esse parentesco: "paz" é sälam em amárico, salām em árabe e shalom em hebraico. Ao mesmo tempo, séculos de convivência com línguas cushíticas, como o oromo e o agaw, mudaram sua gramática e sua pronúncia, o que o torna bem diferente dos seus parentes do Oriente Médio. Do italiano, por causa da ocupação de 1936 a 1941, vieram palavras como "mäkina" (carro, de "macchina").
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Curiosidades sobre o amárico
- A Etiópia usa um calendário próprio, com 13 meses (doze de 30 dias e um de 5 ou 6), que fica cerca de sete a oito anos "atrasado" em relação ao calendário gregoriano.
- A escrita ge'ez tem seus próprios algarismos (፩, ፪, ፫...), inspirados nos numerais gregos, hoje usados sobretudo em datas e contextos tradicionais.
- Muitas frases do dia a dia mudam conforme o gênero da pessoa com quem se fala: "obrigado a você" e "como vai?" têm formas diferentes para homens e mulheres.
- A palavra "buna" (café) é amárica, e a região de Kaffa, no sudoeste da Etiópia, é frequentemente apontada como o berço do café arábica.
- Em Israel, milhares de judeus de origem etíope ainda falam amárico em casa, e a língua pode ser ouvida em sinagogas e mercados de algumas cidades.
- O amárico tem uma forte tradição de "sem-ena-werq" ("cera e ouro"), jogo poético de duplo sentido em que uma frase esconde um segundo significado.
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