Quíchua
Runa Simi
Família de línguas andinas, herdeira da língua geral do Império Inca, falada por cerca de 8 milhões de pessoas no Peru, na Bolívia, no Equador e em países vizinhos.
- Falantes nativos
- 7,0 milhões
- Falantes no total
- 8,0 milhões
- Oficial em
- 2 países
- Família
- Quíchua
- Escrita
- Alfabeto
- Direção
- Esquerda → direita
- Ordem básica
- SOV
- Gêneros
- Nenhum
- Casos
- 10
- Tons
- Não tonal
- Primeiro registro
- c. 1560
- Dificuldade p/ BR
Visão geral
Família de línguas andinas, herdeira da língua geral do Império Inca, falada por cerca de 8 milhões de pessoas no Peru, na Bolívia, no Equador e em países vizinhos. Pertence à família Quíchua (Quíchua II (Quíchua do sul)) e é escrito com alfabeto latino. Estima-se que tenha cerca de 7,0 milhões de falantes nativos e 8,0 milhões de falantes no total, contando quem o usa como segunda língua.
Características marcantes
- Foi a língua geral do Império Inca, o maior Estado das Américas pré-colombianas.
- Tem sufixos evidenciais que indicam como o falante sabe o que afirma.
- É altamente aglutinante, com palavras longas formadas por sufixos.
- Usa apenas três vogais fonológicas.
- É a família de línguas indígenas mais falada das Américas.
Origem e história
O quíchua surgiu nos Andes centrais do Peru, provavelmente há cerca de dois mil anos, e se dividiu em dois grandes ramos: o Quíchua I, falado na serra central peruana, e o Quíchua II, que se espalhou para o norte e para o sul. Ao contrário do que muitos pensam, o quíchua não nasceu em Cusco nem foi criado pelos incas: quando o Império Inca se formou, no século XV, a língua já era falada numa vasta região e foi adotada como língua de administração e comunicação do império, o Tawantinsuyu.
Com a expansão inca a partir de Pachacútec, em meados do século XV, uma variedade de quíchua se tornou língua geral do Tawantinsuyu, que ia do sul da Colômbia ao centro do Chile. Os incas não usavam escrita alfabética, mas registravam dados nos quipos, e a língua era transmitida por uma rica tradição oral de cantos, orações e narrativas.
Após a conquista espanhola, iniciada em 1532, os missionários adotaram o quíchua para a evangelização. Em 1560, o frei Domingo de Santo Tomás publicou a primeira gramática e o primeiro dicionário da língua, e em 1584 foi impressa em Lima a "Doctrina Christiana", em espanhol, quíchua e aimará, o primeiro livro impresso na América do Sul. Por volta de 1600, foi registrado o Manuscrito de Huarochirí, coleção de mitos andinos em quíchua, às vezes chamado de "Bíblia andina".
Depois da grande rebelião de Túpac Amaru II, em 1780, as autoridades coloniais passaram a reprimir a cultura andina e o uso do quíchua em certos contextos. Ao longo dos séculos XIX e XX, a língua ficou associada à pobreza rural e sofreu discriminação, embora continuasse sendo falada por milhões de pessoas e produzisse poesia, teatro e música, como o drama "Ollantay".
Em 1975, o Peru declarou o quíchua língua oficial, e a Constituição de 1993 o reconheceu como cooficial nas regiões onde predomina. A Bolívia o incluiu entre as línguas oficiais do Estado em 2009, e o Equador reconhece o kichwa como língua oficial de relação intercultural. Hoje há rádios, programas de televisão, música urbana e conteúdo digital em quíchua, além de programas de educação bilíngue, embora a transmissão entre gerações ainda preocupe linguistas.
Linha do tempo
- c. séc. IFormação provável do proto-quíchua nos Andes centrais do Peru.
- séc. XVExpansão inca; o quíchua se torna língua geral do Tawantinsuyu.
- 1532Início da conquista espanhola do Império Inca.
- 1560Domingo de Santo Tomás publica a primeira gramática e o primeiro dicionário do quíchua.
- 1584"Doctrina Christiana", primeiro livro impresso na América do Sul, traz textos em quíchua.
- c. 1600Registro do Manuscrito de Huarochirí, com mitos andinos em quíchua.
- 1780Rebelião de Túpac Amaru II, seguida de repressão à cultura andina.
- 1975O Peru declara o quíchua língua oficial.
Onde o quíchua é falado
O quíchua é falado nos Andes, do sul da Colômbia ao noroeste da Argentina. O Peru concentra a maior parte dos falantes, especialmente nas regiões de Cusco, Apurímac, Ayacucho, Huancavelica e Puno, seguido pela Bolívia (Cochabamba, Potosí e Chuquisaca) e pelo Equador, onde a variedade local é chamada de kichwa. Há também falantes em Santiago del Estero, na Argentina, no sul da Colômbia (inga) e no norte do Chile, além de grandes comunidades de migrantes em Lima, Buenos Aires, São Paulo e outras cidades.
Cooficial em
Peru, Bolívia
Regional em
Equador (kichwa)
Minoritário em
Argentina (Santiago del Estero), Colômbia (inga), Chile
Organismos internacionais: Peru (cooficial), Bolívia (oficial do Estado), Equador (língua de relação intercultural).
Regulação: Academia Maior da Língua Quíchua (Qhapaq Simi Kamayu Suntur), em Cusco, e ministérios de educação dos países andinos · Vitalidade: Vulnerável
Sistema de escrita
- Sistema
- Alfabeto latino
- Tipo
- Alfabeto
- Escritas
- Latino
- Símbolos básicos
- 28
- Direção
- Esquerda → direita
O alfabeto oficial do quíchua do sul, na variedade de Cusco, tem cerca de 28 letras, com apenas três vogais (a, i, u) e consoantes simples, aspiradas (ph, th, chh, kh, qh) e glotalizadas (p', t', ch', k', q'). A variedade de Ayacucho dispensa as aspiradas e glotalizadas e usa bem menos letras. Durante a colonização, o quíchua foi escrito com ortografias baseadas no espanhol, por isso ainda se veem grafias como "Cuzco" e "Inca" ao lado de "Qusqu" e "Inka".
Escrito da esquerda para a direita. Os incas não tinham escrita alfabética: registravam números e, possivelmente, outras informações nos quipos, cordões com nós de diferentes cores e posições.
Pronúncia
O quíchua tem só três vogais fonológicas (a, i, u), mas perto das consoantes uvulares "q" as vogais "i" e "u" soam como "e" e "o": "qucha" (lagoa) se pronuncia algo como "kôtcha". O "q" é articulado bem no fundo da garganta, na úvula, e é diferente do "k". Na variedade de Cusco, as consoantes podem ser aspiradas, com um sopro forte ("phuyu", nuvem), ou glotalizadas, com um estalo seco ("t'anta", pão), e essa diferença muda o significado. O "ll" soa como o nosso "lh" e o "ñ", como "nh". O acento cai quase sempre na penúltima sílaba, e como os sufixos se acumulam, ele "anda" pela palavra à medida que ela cresce.
- Vogais (aprox.)
- 3
- Consoantes (aprox.)
- 25
- Tonal
- Não
- Acento
- Acento fixo na penúltima sílaba
O que costuma ser difícil para brasileiros: A consoante uvular "q", as aspiradas e glotalizadas (em Cusco) e a abertura das vogais perto do "q".
Estrutura gramatical
O quíchua é uma língua aglutinante exemplar: sufixos se somam a uma raiz, sempre em ordem previsível, para formar palavras longas e muito precisas. "Wasi" é casa; "wasiy", minha casa; "wasiykuna", minhas casas; "wasiykunapi", nas minhas casas; "wasiykunapipas", também nas minhas casas. Os substantivos recebem sufixos de caso que fazem o papel das preposições do português (-pi, "em"; -manta, "de"; -man, "para"; -wan, "com"). A ordem básica é sujeito-objeto-verbo. Um traço marcante é a evidencialidade: sufixos indicam como o falante sabe o que diz, se viu com os próprios olhos (-mi), se ouviu de outra pessoa (-si) ou se está supondo (-chá). Há ainda dois "nós": o inclusivo "ñuqanchik" e o exclusivo "ñuqayku".
- Ordem
- SOV
- Morfologia
- Aglutinante
- Casos
- 10
- Gêneros
- Nenhum
- Artigos
- Não
Gênero gramatical: Não há gênero gramatical. O pronome "pay" significa "ele" e "ela", e o sexo é indicado, quando necessário, com palavras como "qhari" (homem) e "warmi" (mulher). Alguns termos de parentesco, porém, mudam conforme o sexo de quem fala: "irmã" é "pana" para um homem e "ñaña" para uma mulher.
Destaques da gramática
- Sufixos evidenciais que indicam a fonte da informação: -mi (vi), -si (ouvi dizer), -chá (suponho).
- Cerca de uma dezena de casos marcados por sufixos, no lugar das preposições.
- Ordem sujeito-objeto-verbo, com o verbo normalmente no fim da frase.
- "Nós" inclusivo (ñuqanchik) e exclusivo (ñuqayku).
- Sufixos verbais que expressam nuances como cortesia, direção ou ação feita para outra pessoa ("-ku", "-mu", "-pu").
Dificuldade para brasileiros
Moderado · cerca de 1.000 horas de estudo até o nível intermediário
Para brasileiros, o quíchua tem pronúncia relativamente acessível (com exceção das consoantes uvulares, aspiradas e glotalizadas) e usa o alfabeto latino. A gramática é regular e lógica, mas a ordem sujeito-objeto-verbo, o empilhamento de sufixos e a evidencialidade exigem uma nova forma de pensar a frase. Há ainda a variação entre regiões, que obriga a escolher uma variedade, em geral a de Cusco ou a de Ayacucho. A língua não é classificada pelo Foreign Service Institute (FSI).
Palavras em quíchua
| Quíchua | Pronúncia aproximada | Significado | Ouvir |
|---|---|---|---|
| yaku | IA-ku | água | |
| wasi | UA-si | casa | |
| masi | MA-si | companheiro, amigo | |
| mikhuna | mi-KU-na | comida | |
| inti | IN-ti | sol (e o deus Sol dos incas) | |
| munay | MU-nai | amor; amar, querer | |
| sunqu | SON-ko | coração | |
| pacha | PA-tcha | terra, mundo, tempo (como em Pachamama) | |
| chakra | TCHA-kra | terra cultivada (origem de "chácara") | |
| kuntur | KUN-tur | condor |
Contando de 1 a 5
- 1huk
- 2iskay
- 3kimsa
- 4tawa
- 5pichqa
Frases úteis
A pronúncia aproximada foi escrita para leitores brasileiros; a sílaba em maiúsculas é a tônica. O botão 🔊 usa a voz do seu navegador, quando disponível.
| Português | Quíchua | Pronúncia | Ouvir |
|---|---|---|---|
| Olá | Rimaykullayki | ri-mai-ku-LHAI-ki | |
| Bom dia | Allin p'unchaw | A-lhin PUN-tchau | |
| Boa noite | Allin tuta | A-lhin TU-ta | |
| Tchau | Tupananchikkama | tu-pa-nan-tchik-KA-ma | |
| Como vai? | Allillanchu? | a-lhi-LHAN-tchu | |
| Meu nome é Ana | Sutiyqa Anam | su-TII-ka A-nam | |
| Prazer em conhecer | Anchatam kusikuni | an-TCHA-tam ku-si-KU-ni | |
| Obrigado | Sulpayki | sul-PAI-ki | |
| Por favor | Ama hina kaspa | A-ma I-na KAS-pa | |
| Desculpe | Pampachaykuway | pam-pa-tchai-KU-uai | |
| Sim | Arí | a-RI | |
| Não | Manam | MA-nam | |
| Não entendo | Manam hamut'anichu | MA-nam ha-mu-TA-ni-tchu | |
| Quanto custa? | Hayk'ataq? | hai-KA-tak | |
| Onde fica o banheiro? | Maypitaq bañu? | mai-PI-tak BA-nhu | |
| Eu te amo | Munakuyki | mu-na-KUI-ki | |
| Saúde! (brinde) | Allin kawsay! | A-lhin KAU-sai | |
| Bem-vindo | Allin hamusqayki | A-lhin ha-mus-KAI-ki |
Llapan runakunam kay pachaman paqarimunku qispisqa, kikin hayñiyuqmi.
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Semelhanças com outros idiomas
O quíchua não tem parentesco comprovado com nenhuma língua fora de sua própria família, mas convive há séculos com o aimará, com o qual compartilha grande parte do vocabulário e da estrutura, a ponto de alguns linguistas terem proposto uma família "quechumara"; hoje, a explicação mais aceita é um longo contato. O quíchua recebeu muitos empréstimos do espanhol e, por sua vez, deu ao espanhol, ao português e a outras línguas palavras como "lhama", "puma", "condor", "coca", "quinoa", "pampa", "guano" e "charque". Em português, "chácara" vem do quíchua "chakra" (terra cultivada) e "cancha" de "kancha" (recinto, terreno cercado).
Idiomas estruturalmente mais próximos
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Índice de afinidade estrutural do Aigenip. Como é calculado.
Curiosidades sobre o quíchua
- "Runa Simi", o nome que os falantes dão à língua, significa literalmente "fala das pessoas" ou "língua do povo".
- A palavra portuguesa "chácara" vem do quíchua "chakra", terra de cultivo, e chegou ao Brasil por meio do espanhol platino.
- "Pachamama", a Mãe Terra cultuada nos Andes, junta "pacha" (terra, mundo, tempo) e "mama" (mãe).
- Nomes de lugares famosos são quíchuas: "Machu Picchu" significa "montanha velha", e "Cusco" (Qusqu) é tradicionalmente interpretado como "umbigo do mundo".
- O "charque", carne salgada e seca ao sol, vem do quíchua "ch'arki", que também deu origem ao inglês "jerky".
- Uma mesma frase em quíchua pode mudar de sentido conforme o sufixo evidencial: "paramushanmi" (está chovendo, eu vejo) e "paramushansi" (está chovendo, me disseram).
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